Diário![]() 20/05/2008 23h56
Estatueta Para os Participantes de 68 -Belo Horizonte, 19/05/2008-Câmara Municipal
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Os vereadores Carlão e Neila Batista, da Cãmara Municipal de Belo Horizonte, ofereceram uma estatueta às pessoas que participaram , em Belo Horizonte, dos acontecimentos de 1968. Ano caótico.Em maio desse ano cito, intelectuais, sindicalistas e estudantes parisienses invadem as ruas e a história muda.Lembro-me de quando recebi, da editora Laudes, muito corajosa para a época em que vivíamos no Brasil, sobre "A Primavera de praga'.Eram livros de capa branca e que eu tinha de esconder dentro do colchão, não sob, dentro mesmo.Trabalhava na Gazeta Comercial de Juiz de Fora e tinha o privilégio de ter entregues em mãos, pelo homem de cabelos brancos e terno cinza, os livros proibidos (contei aqui, sobre "O Menino de Belém",que continha até fotos de Edson Luiz, morto no episódio do Calabouço).Os hippies desejavam Paz e Amor e criaram códigos e sinais, normas de vida, desprezaram a moda vigente, praticaram o amor livre.Make love, not war, contra a guerra do Vietnã. A comoção de perdermos Martin Luther King -pois era também nosso. Os tropicalistas traziam uma nova música, para saborear e decodificar. No Momento 68, desfile fashion da FHENIT, Caetano e Gilberto Gil, cantam- seguindo a caravana, antes do exílio.Os artistas eram da resistência aberta.principalmente os de Teatro.Outra editora corajosa: A Civilização Brasileira. Publica fotos de atores e atrizes em protesto. A censura é histriônica ou dolorosa. O erotismo é amordaçado , em nome de um moralismo ridículo. Ou apenas para um motivo a mais que justifique prisões.Versos e canções cheios de camuflagens.Infiltrados entre nós, muitos agentes do Governo parecem confusos.As Arte e As letras cada vez mais criativas.Imprensa direcionada,amordaçada ou sob normas absurdas. Novas cores aparecem nas artes,nossos amigos são presos por qualquer motivo alegado, fossem militantes ou não.Desaparecem muitos. Os jovens são estupidamente corajosos ou transcendem o Medo? Em Contagem , a greve que sacudiu as Gerais.O Cinema posiciona idéias com imagens fortes... A bela imagem é foto do mineiro Luiz Paulo Lyrio, que fotografou sua estatueta.Ele foi ativista estudantil, preso mas não torturado.Certa feita, um assessor de canal de TV ligou para entrevistá- lo junto a outros militantes da época. Para Neuza Ladeira, Luiz Paulo Lyrio (**) e Marco Aurélio lisboa(***) Foi descartado porque não fôra torturado. Não no sentido do esmagamento físico. As pessoas às vezes são muito estúpidas nessas classificações. Não sabem da dor moral-ou não querem saber. Não sabem o que é ouvir os gritos dos colegas fragmentados.Os rangidos Temer passos que se aproximam. Os arrastamentos. Saber dos "suicidados". Dos que se suicidaram. Esperar pelos que não voltaram... Ouvir o coração parar, explodir, depois retomar as lentas batidas, á força., quando o corpo pede trégua.Ou passagem. Encapuçados não sabem de que lado virá a pancada. Molhados sentem os choques com maior intensidade. Em que momento "a alma foi-se embora e não quer voltar?"(*) . 1968 .Dizemos sem falar. Olhares, gestos,abraços. Ou dizemos e depois, os gritos nos porões. Os sufocamentos, afogamentos, choques, unhas arrancadas, socos, pancadas, telefones, paus-de-arara. Estuprados, aleijados, inutilizados,mortos. Protagonistas do horror. Calabouço, porões, precipícios, maralto, Jogados de aviões, enterrados sem identificações. Exilados, clandestinos, sem direito a ser chamado pelos próprios nomes(****)... Uma estatueta para a dor sentida,curtida até ao desgaste, ao sol do tempo, implacável? Não: estatueta para o não esquecimento. para a História viva e inquieta, das restemunhas convocadas, reunida num momento de relembranças angustiantes. Para olhar e nunca esquecer. A Memória não pode ser enterrada em vala rasa nem a sete palmos. Os ossos da história precisam ser identificados. A voz já não precisa calar-se. 1968 foi um ano singular dentro dos Anos de Chumbo. Clevane Pessoa de Araújo Lopes, Embaixadora Universal da Paz (Cercle de les Embassadeurs de la Paix-Genebra, Suiça), Diretora Regional do inBrasCi em belo Horizonte e Cônsul Z-C de Poetas del Mundo. (*) Neuza Ladeira contou-me que certa vez, durante uma tortura, a alma foi-se embora para jamais voltar. (**) Luiz Paulo Lyrio da Silva, Professor de História há mais de trinta anos, acaba de aposentar-se: conta em "Nos Idos de 68", a história do moviemnto estudantil à época, em belo Horizonte.O livro foi ampliado e revisado e será relençado em outubro, pela Editora Mazza, com prefácio do poeta e jornalista ASlécio Cunha. (***) Marco Aurélio Lisboa, físico, foi torturado e viveu muitos tempo na clandestinidade,sem poder usar seu próprio nome. Os três são poetas ,CÔnsules de Poetas del Mundo e participaram , em 30/03/2008, do Movimentos dos Poetas Pela Paz e pela poesia (PAZ E POESIA). (****) faço aqui uma referência ao título do livro sobre Malcom X: "E Pelas Praças Não terei Nome" Publicado por clevane pessoa de araújo lopes em 20/05/2008 às 23h56
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